ACERVO | deriva do bem

Camilo Amaral

2026 - 20ª Edição

Setor Sul - Goiânia

Goiânia, 2026

Do vigor das flores

Conta-se que, numa cidade imaginada pelo rigor e esquecida com cuidado, surgiram errantes sem nome, dos quais ninguém sabia nada.

Ali, andarilhos apareciam ao amanhecer e plantavam uma ou outra muda, rompendo aquele concreto todo armado. Outros passavam ao meio-dia, só para retirar o abandono já acumulado, devolvendo fulgor ao que restava de lugar. Outros, de noite, gastavam tanta tinta, colorindo profundidades sem fim em muros que não eram nada além de cegos.

Um senhor, sem nome conhecido, ainda regou uma árvore que só lhe rendeu frutos roubados. Estranho fervor, coisa desvairada.

E assim, distraídos — jardineiros anônimos, cultivadores ocasionais e guardiões invisíveis —, zelaram por um lugar que jamais lhes foi confiado.

Nessa trama ambígua, os arames farpados assobiam passivos, gritos de violência e promessas ao vento. Aos seus pés, lânguidos jardins ainda sussurram pequenos floresceres. Metais cercando temor, plantas brotando esperançar.

E, na multidão, sobrepondo seus passos aos olhares cruzados de pequenos pactos silenciosos, pouco a pouco se viu que também o abandono é uma espécie de violência; não aquela do golpe, mas aquela da ausência: da sombra de uma árvore que nunca foi plantada, do banco distante em que alguém se isolou, do terreno vazio onde ninguém se encontrou.

Mas aquela estranha epidemia ainda teimava em se espalhar. E uma flor chamou a outra, e uma muda motivou o broto, e o cuidado cutucou a atenção. E o passante parou.

Mas ninguém se perguntou: “De quem é?”. Porque ali descobriram que essas coisas são bem comuns mesmo. Mais do que se imagina, nem são de ninguém. E, se crescem e se cuidam, se bastam.

Pois essas coisas se embrenham nas brechas, justamente aquelas menos prováveis, entre a desconfiança e a esperança; florescem nos vãos e desobedecem os limites.

E, se erram e se derivam, se vastam.

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