Não sou fotógrafo, e de verdade, nem sei se saberia ser. Talvez seja essa uma das maiores belezas do Deriva. É propor registrar o que nossos olhos veem. E, por vezes, esses olhos precisam de lentes. Lentes para ampliar, para focar. Para ver melhor. E olha, quantas vezes passei por esse cantinho da cidade sem ver. Sem ver os becos que escondem tesouros, as paredes que contam histórias, as casas que abrigam reclusos, os bancos de praça que envolvem os invisíveis, que passam ali, aos olhos de todos, mas ninguém viu. Ao passar pelo invisível, os olhos se desviam, procurando conforto no chão ou no céu. O assunto muda, a voz fica mais baixa, sai de lado, o sorriso some. A mão vai no bolso, protegendo o que talvez julguem valer mais do que o invisível. O invisível está ali, mora na mesma cidade, mas ninguém sabe onde dorme. Talvez tenha comido, mas ninguém viu o seu prato. Com certeza ele urina, mas ninguém sabe aonde. Quando some, talvez tenha morrido, mas ninguém sabe de quê. Talvez nos falte olhar o invisível como quem olha no espelho. O invisível tem rosto, tem voz, tem bexiga, tem fome. O invisível tem nome. Foi o que disseram as fotos que eu tirei. Eu não sou fotógrafo, e continuo achando que não saberia ser. Mas depois dessa experiência, dificilmente andarei com a cabeça tão baixa e com o passo tão apressado. A inquietação nasceu novamente em mim. E penso que de nada vale calçar as sandálias da humildade em meio a tantos pés descalços.
Obrigado pela experiência,
Emanuel Cabral :)